Apresentação do livro O país dos bem-te-vis

O País dos Bem-te-vis é um livro de não-ficção, um ensaio sobre a inveja no conjunto dos hábitos sociais brasileiros. Dividido em 4 partes, a primeira trata das raízes, a formação histórica, a gênese das tradições e valores. A segunda parte aborda o que é a inveja de uma forma profunda, e afirma a característica humana universal. A terceira parte aponta a extensa ação da inveja no agir do Brasil contemporâneo. A última parte  é a que descreve as soluções e saídas que a nação encontra.

O livro inicia fazendo uma interessante análise da história do comportamento invejoso nacional, desde  a insensibilidade do extermínio dos índios, a escravidão e o sadismo da família patriarcal escravocrata,  ressaltando a contribuição definitiva da Santa Inquisição e da excessiva religiosidade portuguesa.

Traz à luz uma questão pouco valorizada na formação do país,  a atuação extensa e forte da Inquisição em Portugal e no Brasil, a perseguição, as mortes, as denúncias por interesse, a inversão de valores espirituais, as propinas e privilégios, a corrupção desde os primeiros séculos. Esclarece a emotividade passional como qualidade brasileira, e também a identificação projetiva, um traço que permite ver com facilidade o que o outro quer para então utilizar no próprio interesse. O término dessa primeira parte é feito com a pesquisa IBOPE  sobre os números da inveja na sociedade.

Na segunda parte há um aprofundamento na origem do sentimento: a inveja do seio, do Édipo na família, as onipresentes invejas do pênis e do útero,  os mitos, religiões e contos de fadas. Expõe como paralisa o tempo, onde só o presente tem importância, individualmente e  na sociedade de consumo em que o futuro não existe. Verifica que o ser humano pode escolher o pior mesmo sabendo o que é o melhor para si, e que essas condições universais elencadas surgem sem polimento no comportamento  brasileiro.

A terceira parte é específica na ação da inveja na manifestação nacional dos dias de hoje: a maledicência, mentira, a negação da responsabilidade tão comum nas atitudes no país, esclarecendo com exemplos as ações de conformismo e medo, o terror que permeia tudo em toda parte. Torna clara a questão da autoinveja, a inveja de si mesmo, individual e  do conjunto da sociedade com ela própria e o Estado. Aqui a repressão da diferença, marcando toda criatividade para destruí-la, aliada à falta de consciência e racionalidade imposta pela Inquisição, permite a banalização  da violência, a repetição  incessantemente dos mesmos erros.

Recusar a bondade  impede o aprendizado com a experiência, a transmissão do saber para as gerações seguintes, razão pela qual cada geração aqui começa do zero: a incrível negligência brasileira com a educação e o raciocínio, desde a época colonial.

Na última parte, o mais esperado, a propositura de soluções. A terapia, a necessidade humana de curar-se e como fazer reparações de fato é libertador pra todos os envolvidos, até mesmo os já mortos. A gratidão, o oposto da inveja que o bebê vivencia no seio, é universal, uma força natural no sentido contrário da inveja, para a qual o Brasil é pleno de razões. A reverência ao sagrado,  o perdão, a espiritualidade, uma das maiores carências nacionais a ser preenchida com urgência. A espiritualidade é força motriz de comportamentos sempre no oriente e no ocidente, ao longo das civilizações. A espiritualidade brasileira vem da Inquisição,  e uma espiritualidade diferente leva a uma cultura  também diferente. Comprova que a admiração, que é a capacidade de semelhança, de participação nas virtudes do admirado é a cura, a resposta. Reverência e admiração implicam em consciência do melhor e da participação consciente do sujeito, indivíduo, time, comunidade, nação, nesse melhor admirado. Termina ressaltando a capacidade brasileira para a alegria, para a festa coletiva onde não há inveja mas união do e no conjunto para a alegria, onde o povo alcança uma perfeição, uma saúde única.