Escrita

Primeiro rascunho, ainda sem edição e correção crítica, da minha idéia – A inveja como atitude dominante na cultura brasileira, o que nos faz ser como somos…

livro Inveja – completo 20 agosto 2017

INVEJA – O Pecado Brasileiro

Mal Secreto, livro do escritor Zuenir Ventura, sobre a inveja, relata a pesquisa do IBOPE- Instituto Brasileiro de Pesquisa, de opinião pública sobre a inveja. Zuenir conta de forma brilhante e encantadora esse processo, como o das entrevistas da sua pesquisa pessoal, oferece relatos de histórias humanas incríveis, viu e participou de fatos peculiares interessantíssimos – jornalista que é. Feita de 17 a 22 setembro de 1997, exclusiva para o autor, desnuda a realidade da inveja no Brasil – o pecado brasileiro, como pode-se comprovar:

“Pesquisa de opinião pública sobre os 7 pecados capitais’
Total – 2000 entrevistas
Universo pesquisado: população do Norte, Nordeste, Centro Oeste, Sudeste e Sul, capitais e interior,
Municípios de até 20 mil habitantes, de 20 a 100 mil, e de mais de 100 mil habitantes.
Grupos de idades de 16 a 24 anos, de 25 a 34anos, de 35 a 44 anos, de 45 a 54 anos e 55 ou mais.
Classificação econômica: Classe A1 e A2, Classe B1 e B2, classe C e classe D/E

Para perguntas espontâneas, “quais são os 7 pecados capitais”, mais de 80% não conheciam ou não souberam nenhum.(!)
Quando os pesquisadores mostraram as cartelas com os 7 pecados capitais e perguntaram “quais deles conhece ou lembra?”
73% reconheceram inveja. A preguiça 59%, a ira 48%, a gula 45%, a luxúria 39%, a soberba 37% e a avareza 30%.
Com que freqüência praticavam , se é que praticavam, cada pecado, com as opções: freqüentemente/de vez em quando/raramente/nunca
83% nunca cometeram pecado da inveja,;1% freqüentemente;7% de vez em quando;7%raramente
Os aspectos que causam inveja:
34% sucesso (pessoal ou profissional); 25% bens materiais (casa, carro); 24% valores morais (honestidade, coragem, integridade); 22% atributos físicos (beleza, simpatia);19% status sócio econômico (classe, situação financeira); 14% fama; 13% poder.
Percebiam ou não que alguém sentia inveja dele/dela: 65% sim e 35% não
Entre pessoas com grau de instrução superior, a percepção chegava a 75%
58% dos que recebem até 2 salários mínimos percebem e 60% membros da classe D/E percebem
O que você faz contra mau olhado: 54% nada; 38% rezar, fazer orações.
A inveja é o pecado mais conhecido em todos os níveis e classes sociais, em todos os níveis de instrução, em todas as idades, todos os lugares e por ambos os sexos. Está expressa na pesquisa exclusiva mais abrangente e completa já realizada. É O PECADO BRASILEIRO[Ventura, Z, Mal Secreto, 1998] .

Zunir Ventura também fez a sua própria pesquisa, enviando um questionário extenso, com perguntas de múltipla escolha e outras descritivas sobre a inveja para 50 psicanalistas, número igual de padres e de pais e mães de santo, por considerá-los profissionais que tem mais informação e familiaridade com a inveja, por estudo e experiência com seus fiéis e clientes. Dos psicanalistas recebeu mais de 50 respostas, que permitiram à sua assessoria tabular dados, confirmando a pesquisa:
92% dizem que a inveja aparece de forma indireta no processo de análise,
39% afirmaram que é independente de classe ( 20% que disseram ser a classe média onde mais se relata). O que o invejoso mais deseja é o fracasso do invejado, com 62 % das respostas;
O ressentimento é o sentimento mais presente nos que invejam (37%) seguido da impotência (29%).
48% das pessoas usa algum tipo de amuleto para se proteger e
46% responderam que a inveja é o pecado que ocupa o 1º lugar entre os clientes;
66% do psicanalistas responderam que a inveja é o pecado mais conhecido dos brasileiros.
O mais é invejado: sucesso (19%) seguido de atributos físicos (10%). Bens materiais (6%) e status sócio-econômico (5%) são mais invejáveis do que valores morais (só 1%)

Finalmente, nos terreiros(centros) de Umbanda e Candomblé, o autor encontrou espaços freqüentados por devotos/fiéis de todas as classes sociais, de qualquer cor, onde além de aconselhamento espiritual , pais e mães de santo fazem trabalhos para “fechar” o corpo. Um dos pedidos mais comuns, ele ouviu, é proteção contra o “olho gordo”, sinônimo popular de inveja.
Foi dito a ele que a freqüência do pedido e a crença da população na necessidade de proteção contra inveja é ampla, abrangente e geral. Todas as classes, ambos os sexos, todas as idades. Zuenir Ventura escreve o que as Mães de Santo afirmam: quem se sente muito invejado são em geral pessoas invejosas.[Ventura, Zuenir Mal Secreto, 1998 – O autor generosamente cedeu os dados para este livro, tanto desta pesquisa do IBOPE quanto da que ele mesmo fez:] Esse escritor imortal, membro da Academia Brasileira de Letras, registrou com grandeza, elegância e leveza bem carioca nosso Mal Secreto, o pecado brasileiro.

Uma outra pesquisa, exclusivamente para estudo acadêmico, foi feita com estudantes do Brasil e Estados Unidos para testar a eficácia do questionário DES – Dispositional Envy Scale , ou Escala de Disposição para Inveja – que foi aprovado e considerado eficaz. O estudo também comprovou a relação negativa entre o quociente de DES e satisfação, vitalidade e felicidade. Quanto mais alto o DES, menor a alegria e felicidade (sabemos que inveja diminui a capacidade de pensar e agir, a potência do indivíduo, sua auto preservação, e que quanto mais alto o DES, maior o ataque a si mesmo). O teste, muito simples e eficaz, consiste em oito questões, que a pessoa responde numa escala de 1 a 5 em que 1 é discordo fortemente e 5 é concordo fortemente. As perguntas do teste são[http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_serial&pid=2011-2084&lng=pt&nrm=iso]:

– Eu sinto inveja todo dia
– A amarga verdade é que eu geralmente me sinto inferior aos outros
– Sentimentos de inveja constantemente me incomodam
– É tão frustraste ver algumas pessoas terem sucesso tão facilmente
– Não importa o que eu faço, inveja sempre me aflige
– Eu sou perturbado com sentimentos de inadequação
– De algum modo, não é justo que algumas pessoas pareçam ter todo o talento
– Francamente me ressinto do sucesso de meus vizinhos

Fica o convite ao leitor para responder as perguntas, em que as respostas mais próximas 1 discordam da sentença, e as próximas ou iguais a 5 são as que confirmam as afirmações. Fortemente. Fica também o alerta que todos os seres humanos tem inveja, o objetivo do teste é identificar o NÍVEL de inveja. Se perceber seu nível alto, com fortes concordâncias, seu sentimento de felicidade está baixo. Leia os últimos capítulos com atenção.

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A ALEGRIA

Espinosa[1] define alegria o comportamento intelectual do ser humano inteligente  pleno, potente: Quando a alma se contempla a si mesma e à sua capacidade de agir, alegra-se PIEI.  A alegria é a passagem do homem de uma perfeição menor para uma maior (a perfeição é potência de agir):  quanto mais perfeição uma coisa tem, tanto mais age e menos sofre, e inversamente, quanto mais ela age mais perfeita é. (com o Conatus,  potência de realização de si mesma, agir é realizar-se, agir é viver.).  Com objetivo de alegra-se, aumentar sua potência e ser mais perfeito  ‘o homem esforça-se para conceber as coisas como são (em si) e por afastar os obstáculos do verdadeiro conhecimento, como são o ódio, a ira, a irrisão, o orgulho e outras coisas do gênero  e esforça-se tanto quanto possível por bem agir e por se alegrar’. O objetivo desse esforço, de alegrar-se,   é determinado pela razão, não pela moral :’.. na ordenação dos nossos pensamentos e imaginação devemos atender sempre ao que há de bom em cada coisa a fim de sermos assim sempre determinados a agir pela afecção da alegria…’  Essas conclusões são de uma razão privilegiada, consciente da servidão, consciente do domínio das paixões, portanto trata-se aqui de inteligência  e saudável  bem viver, e mais ainda, receita de liberdade da servidão. O objetivo dessas orientações é a plena capacidade de agir e realizar, a alegria e a liberdade das paixões, a perfeição cada vez maior. Seria bom senso,  não fosse tão brilhantemente  inteligente. Está aqui  o caminho, o norte, a direção e o porque ser verdadeiro, grato e bom. Porque é melhor.

‘O contentamento pode nascer da razão, e só o contentamento que pode nascer da razão é o maior que pode existir – é uma alegria do homem se contemplar e si mesmo e sua capacidade de agir. Sua maior capacidade, sua virtude, é a razão. Logo, o contentamento nasce da razão’ Proposição 52 Ética 4. Ao longo desse livro vimos o quanto a emoção pode sobrepujar a razão. Aqui vemos que só a razão, a verdade, permite uma verdadeira alegria, porque a verdade ilumina a si, tem força própria, traz alegria por si. “…o ódio deve ser vencido pelo amor, e  cada um que é conduzido pela razão deseja que seja também para os outros o bem que deseja para si…’  embora essa frase seja parecida com outras  religiosas,  é resultado de observação  racional, como consta no próprio texto  – pensar bem é útil para o ser humano, simplesmente porque faz bem, e pensar mal ou com ódio faz mal e atrapalha o raciocínio. Simples assim. Por isso  o” homem livre não age nunca com fraude, mas sempre de boa fé”. PLXXIIEIV  Essa observação é fruto  da razão  mais analítica e objetiva. A razão do  pensar é sua utilidade, seu resultado. A consciência é o saber que penso, saber imediato de algo que ocorre em mim, percepção automática. Pensar bem é um ato de vontade e de liberdade absoluta.  Do ser que é capaz de escolha e dono da sua vontade, responsável pela sua escolha. Um ato de vontade e de inteligência.

Espinosa escreve que “uma paixão deixa de ser paixão no momento em que dela formamos uma idéia clara e distinta” Proposição III Ética V.  Dessa forma, “uma afecção está tanto mais em nosso poder e a alma sofre tanto menos da sua parte quanto melhor nós a conhecemos”[2]. Então, por conseguinte,   …”Aquele que portanto se empenha em governar as suas afecções e apetites só  por amor da liberdade, esforçar-se-a por conhecer as virtudes e as suas causas e por encher a alma de alegria, que nasce do verdadeiro conhecimento delas; mas de modo algum se esforçará por contemplar os vícios dos homens.[3]..” O objetivo do bom comportamento e bem pensar é a liberdade da servidão, a alegria da potência de agir, da realização; quanto mais ação, mais perfeição, mais potência.  “Só os homens livres são gratos uns para com os outros[4]“. A inveja é uma doença do processo de renovação vital, uma doença do envelhecimento[5] (seja qual for a idade em que ela apareça). A  moral é o campo da vontade e da liberdade. É do que se trata: doença x liberdade. Inteligência X doença, bem e bom  x mau e mal .

 

“Nosso Medo Mais Profundo”

“Nosso medo mais profundo não é o de não sermos bons o suficiente.

 O nosso medo mais profundo é o de sermos poderosos além das medidas.

 É a nossa luz, e não a nossa escuridão, o que mais tememos.

 Por isso nos perguntamos: Quem somos para nos considerarmos brilhantes, maravilhosos, talentosos, fabulosos?

Nós somos crianças de Deus. A nossa falsa humildade não vai servir o mundo.

Não há nada de iluminado nesse encolher-se para que outros não se sintam inseguros à nossa volta.

Estamos todos aqui para irradiar, como fazem as crianças e, à medida que deixamos a

nossa luz brilhar, inconscientemente damos aos outros permissão para que brilhem também.

À medida que nos libertamos do nosso próprio medo, a nossa presença,

automaticamente, liberta os outros para que façam o mesmo.

A segurança só para alguns é, de fato, a insegurança para todos.

Depois de escalar uma grande montanha, descobrimos apenas que há muitas outras montanhas para escalar.

Marcados nessas pedras, você vai encontrar a dor da nossa luta, a tristeza das nossas

perdas e os alicerces da nossa vitória.

Para o mundo viver em paz é preciso que o círculo de luz seja expandido.”

                     “Our Deepest Fear”, publicado por Marianne Williamson, em 1992 no livro  “A Return to Love”.

ARISTOTELES._Retorica_das_Paixoes

 

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Hi Noemi,
​Here’s the thing…
Writing a novel is hard.
You’re trying to string together 50,000+ words into a coherent story. This is often to hard to take on in a single try.
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Click here for Lesson 1.
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Enjoy and stay tuned! I’ll send you Lesson #2 very soon…
Tim

O invejoso é o pior inimigo de si mesmo

INVEJA – O Objetivo: O Valor de Si e a Identificação Projetiva

Espinosa explica que cada um dos seres humanos é mais alegre quanto mais se imagina perfeito e distinto dos outros, tendo algo que os outros não possuem; ao contrário, se se imagina menos importante do que os outros, fica triste e se esforçará por afastar essa tristeza interpretando mal as ações dos outros – ou enfeitando as suas o mais que puder – esse é o trabalho da inveja, seu OBJETIVO[Consultando Espinosa :
“Sempre que cada um imagina suas próprias ações é afetado de alegria tanto maior quanto essas ações exprimem uma perfeição maior e são imaginadas mais distinta mente; isto é, tanto maior quanto ele pode distingui-la das outras e considerá-las como coisas singulares.
É por isso que cada um se alegra mais com a contemplação de si quando contempla em si mesmo qualquer coisa que pode negar aos outros.
Mas se o que ele afirma de si mesmo o refere à idéia geral de homem, já não se alegrará tanto, e ao contrário, ficará triste se imagina que suas ações, comparadas às dos outros,são de menor importância; esforçar-se-á por afastar essa tristeza interpretando mal as ações dos seus semelhantes ou ornando as suas o mais que puder. Espinosa, B., Ética, 1979] Nietzsche dá o exemplo: “Quando alguns homens falham em alcançar o que eles desejam fazer, eles exclamam raivosamente: Que morra o mundo! Esse é o pináculo da inveja, que implica em: Se eu não posso ter alguma coisa, ninguém vai ter coisa nenhuma nem vai ser coisa[Sartre J P Reflexões sobre o Racismo, 1978:p 28] nenhuma!’
A psicologia classifica a inveja como uma relação sado-masoquista, já que pela idealização do outro o invejoso sente-se inferiorizado e esvaziado. Ele projeta no outro a “perfeição[Narciso era um jovem de grande beleza que se apaixonou por seu próprio rosto ao vê-lo refletido no espelho do lago, tendo ficado se contemplando até a morte por inanição. Perfeição narcísica é a própria perfeicão idealizada e auto-realizadora.] narcísica”, ou seja, aquilo que é do outro é mais perfeito – a grama do vizinho é mais verde – e ‘sempre e quando impossibilitado de obter o que idealiza, ataca seu possuidor[Chuster A, Trachtenberg R, As Sete Invejas Capitais, 2009]’.

O objetivo da inveja é eliminar o incomodo do senso de inferioridade que vem junto de uma comparação instantânea com o outro/objeto invejado – e começa no “olho do observador/invejoso, que exagera, define e escolhe seletivamente coisas para odiar (invidere, mau olhado, olhar infectado pelo demônio). O exagero na idealização(projetiva) daquilo que é objeto da inveja pode transformar folhas em palmeiras e formigas em elefantes[Alberoni, F., Os Invejosos, 1996]’. E sempre o faz: a perfeição narcísica está no outro. O objeto de inveja pode ser qualquer novo, qualquer diferente, qualquer criatividade, qualquer sucesso. Tornar-se-á uma “obra de arte”, será visto pela inveja como uma “dádiva” odiosa.
‘O sentimento é insuportável porque a inveja nos remete ao interior de nós mesmos, onde deveríamos ser cheios de vida (o conatus, desejo de viver) e, ao contrário, descobrimos um vazio dolorido, rancoroso[Alberoni, F., Os Invejosos, 1996]’. Vemos no outro a diferença, a fronteira, o limite, a virtude, todo o bem, totalmente inacessível – enquanto estou condenado à minha inferioridade, incapacidade, impotência. ‘A inveja é ver a si próprio como separado, isolado e sem substância, fundamento, valor[Alberoni, F., Os Invejosos, 1996]’. Sensação de solidão e vazio insuportaveis, a diferença e carência provocada pela comparação com o outro é registrado pelo corpo da mesma forma que uma agressão física, uma ameaça de morte. Enfrentando o vazio interno de valor, a própria limitação e mortalidade(a realidade que a inveja odeia mais profundamente), sentimos uma angústia e um desespero que provocam ódio em relação ao que invejamos. O impulso é aniquilar a dor e o tormento, ao eliminar o que os causou. Angustia e raiva ocorrem juntas, e causam grande sofrimento, inclusive fisico, que transparece num desespero hostil nos olhos. Para reduzir esse estado insuportável, nossa psique se defende da inveja/angustia-hostilidade projetando-a no outro/objeto. Para isso, usamos o mecanismo da identificação projetiva[Berke, J., A Tirania da Malícia, 1992, Pag 72] que nega a identidade natural do outro/objeto da inveja.

A IDENTIFICAÇÃO PROJETIVA
É uma manobra através da qual manipulamos palavras, pensamentos, atos, ações ou estados de animo (ou seja, qualquer meio) para colocar algo de nós mesmos no outro – pessoa, grupo, coisa, representação mental – combinando ambos (projeção sobre a vítima). Assim, ‘tanto mudamos a nossa própria percepção (pela mentira e uso da paixão para subjugar a razão) quanto fazemos uma transação/troca inter p[Berke, J., A Tirania da Malícia, 1992, Pag 72]essoal’(relação de poder vítima-algoz efetivada através do campo/atmosfera) ao misturarmo-nos ao outro.
Do ponto de vista do invejoso, ‘o objeto invejado não existe mais por si só, mudou, é idêntico ao que ele projetou de si no objeto, ou o que a ele atribuiu[Berke, J., A Tirania da Malícia, 1992]’. Sua falsa premissa se estabeleceu . Crê na mentira que criou. Do ponto de visto do invejado, a pessoa/grupo, pode ter uma sensação inexplicável/indistinta de ser ou sentir-se diferente, ou perceber que está sendo visto e/ou tratado de maneira peculiarmente inadequada. A inveja já existe fora do invejoso, no ambiente.
Não há mágica[Berke, J., A Tirania da Malícia, 1992, Pag 72], ilusão ou fantasia, trata-se do “campo” ou “atmosfera”, “ambiente”, que pode suscitar emoções e experiências dentro do outro, e ter efeito destrutivo na sua paz de espírito. Ao usar sentimentos, palavras, emoções, imagens, alteramos o corpo, mesmo que de forma interna e imperceptível. Todo o tempo. A sensibilidade permite também o contágio emocional, em que as pessoas identificam e sentem a emoção do outro – as imagens induzidas, transmitidas, faladas ou pensadas afetam a psique e o físico concomitantemente. A alma age e sofre, é passiva para afetos tristes. Assim e por isso “a vítima se sente invadida e dominada por pensamentos e desejos que normalmente rejeitaria, por isso a percepção inconsciente do “mau olhado” ou identificação projetiva conduz ao um medo profundo daqueles que o lançam. O “olhar do mau-olhado”, resultado da projeção, penetra o outro(s) e o(s) enche de maldade, fazendo soar o alarme interno do terror, pela expectativa de ser mudado em algo mau[Berke, J., A Tirania da Malícia, 1992, Pag 72].” Por termos consciência – mesmo que não percebida ou lembrada – do terror da ameaça da inveja (que imprime “a marca, a abjeção” daquele(s) atingido(s) pela força da ação invejosa), é que nós a tememos constantemente em nosso país. Porque a conhecemos, convivemos com ela, está no ambiente e nas práticas, todo o tempo.
Exemplo individual: Neusa Vieira, 38 anos, é empregada doméstica, diarista, moradora da favela da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro. Tem um metro e cinqüenta e pesa no máximo 50 quilos; mesmo assim é forte, em virtude do tipo de trabalho que executa. Ela e o companheiro Manoel tiveram seu filho Davi há dois anos. O menino é muito grande para a idade, e também é forte e inteligente. No aniversário de dois anos, no colo, estava quase do tamanho da própria mãe. Quando a criança vai, junto com um dos pais, para a casa de uma determinada parente, que tem filhos pequenos, muitas vezes volta passando mal, chorando e vomitando. Neusa relata que imediatamente leva o filho “a uma rezadeira”, que é o que cura a criança. Já constatou que não é mal estar por doença, e que após a reza seu filho fica bem de novo. Também conta que muitas vezes, quando o filho apresenta algum mal estar do qual a medicina não identifica a origem, leva a criança à rezadeira e a seguir o menino está bem. A constância em levar o filho à rezadeira é explicada com simplicidade e tranqüilidade: sabe que o filho, grande e forte para a idade, bonito e inteligente, é alvo de mau olhado que o faz passar mal fisicamente. A prova é a sua recuperação imediata, “já sai da rezadeira bom”.
A ressaltar, a reação física da criança que recebe a carga do ambiente, e a pessoa rezadeira, conhecida, disponível, e efetiva.

Por ser sobre o valor de si próprio, a inveja sobrevive mesmo depois que o objeto ou frustração é superado, o problema resolvido, a injustiça corrigida. Pode ser associada a eventos reais mas é mais do que reação a eles – a tensão da inveja não depende de nada do que esteja realmente acontecendo, e nem precisa ser relacionada ao que acontece. O fundamental é o interno.
Francisco Alberoni, autor de Os Invejosos, explica que esse incomodo, na inveja coletiva, se forma (como também na inveja individual) “nas situações de fracasso repetido, de ambivalência permanente, de longos e ambíguos relacionamentos entre uma civilização superior e uma inferior, onde a inferior não consegue se colocar de um lado ou de outro, não consegue nem permanecer ela própria, nem mudar, tornar-se como seu modelo[Alberoni, F., Os Invejosos, 1996]”. Essa aculturação x rejeição, admiração x denegrimento, atração x ódio, exatamente por sua complexidade e ambivalência conduz a inveja coletiva, composta por uma idealização mais forte, inferioridade maior e má[Alberoni, F., Os Invejosos, 1996 Pag 129]-fé. O ressentimento invejoso, na opinião desse autor, é uma característica de todos os povos do 3º Mundo.

Um exemplo coletivo nosso: A recente Olimpíada no Rio de Janeiro, em 2016, incluindo a ausência de verdadeira admiração e de respeito – as vaias dos espectadores brasileiros, em quase todos os esportes, a atletas e times olímpicos, impressionando(profundamente) jornalistas, esportistas e espectadores, foram assunto internacional [http://agenciabrasil.ebc.com.br/rio-2016/noticia/2016-08/vaias-da-torcida-incomodam-e-imprensa-estrangeira-questiona-rio-2016] – a vaia ao time/atleta olímpico não é só o “hábito de torcedor de futebol”, é também expressão da inveja do que é excelente, superior ao normal, aparentemente inatingível.
Associa-se ao “complexo de vira-lata”, também assunto comentado pelos correspondentes:
O caso do atleta e seu grupo que alegaram terem sido assaltados num posto de gasolina para justificarem o seu atraso no retorno aos alojamentos, teve uma repercussão tão grande no Brasil, causou tanto comentário entre nós, que a BBC Brasil publicou: “… a saga do nadador americano Ryan Lochte mexeu com “complexo de vira-lata” do brasileiro e isso explica a “obsessão” com que o caso foi acompanhado até o seu desfe[http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37129923]cho.“ O Complexo de Vira-lata foi escrito por Nelson Rodrigues em 1958: “Por complexo de vira-latas entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto domando. Isso em todos os setores.”[Carvalho, A., Os Sete Pecados Inveja, 2015] Junto com a identificação projetiva, o par que compõe a inveja.

 

 

 

 

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