01/04/2014

Eu vi o DOI-Codi.
Não sabia de verdade mas percebi, senti, busquei informações, ouvi. No ar, no escuro dentro dos muros, no silêncio de morte. Eu vi.
Era criança, 10, 11 anos, passava na frente daquele quartel grande que ainda existe no mesmo lugar na Tijuca, no Rio, para ir ao clube. Sabia que era importante não só porque era grande, sabia que era mais que isso.
Porque mesmo depois de tanto tempo passando ali, o silêncio continuava, a quietude era anormal. Nem passarinhos cantavam ali.
A curiosidade atiça a percepção, comecei a prestar atenção em tudo, comentários, notícias. Com 11 anos é possível em silêncio e sem alarde saber claramente o que acontece na sua frente.
Claramente . A energia estava no ar, o som da morte, aquele silêncio tão horrível, o ar pesado das ondas de dor e martírio que aconteciam ali. Aquele escuro nos cantos, nas pontas . Ninguém andava por ali. Essas ondas mantinham as pessoas afastadas, o silêncio inumano. Uma vez pensei nisso, como não ouvimos nada do que acontece aqui? Depois vi já tinha ouvido, através do silêncio, das ondas de energia ruim empurrando seres, animais e pessoas para longe. Era tão pesado que dava vontade de crispar o rosto ao passar lá. Não se atreva a dizer que estava impressionada. Além dos pássaros, do escuro, do peso do ar, também havia o rosto dos militares. Nada tinha vida ali.
Depois da “abertura’, muitos anos depois, li todos os livros e escritos que pude, assisti a todas as peças teatrais que foram finalmente encenadas – Papa Higirte, inúmeras, maravilhosas, Oduvaldo Viana Filho, Vianinha.
Muitas vezes agradeci ser criança naquele tempo. Se fosse mais velha teria me juntado aos que lutavam contra a ditadura, com toda certeza. Claro. Não havia outra coisa a ser feita!
E quando lemos e sabemos a descrição das torturas aplicadas às pessoas, penso no que vi, não posso aceitar, me calar, quando ouço dizerem voltem os militares. Respeito militares, de carreira, nada contra. Essas pessoas querem a volta do governo forte, do cabresto, eu nem consigo pensar direito.
Que mal foi feito à essa nação pela ditadura!
Temos hoje uma educação miserável, uma modificação implementada na ditadura, que minha mãe, professora, formada em escola normal, participou do protesto possível em 1969 contra – a reforma do ensino. Nunca mais, nunca mais tivemos educação de qualidade. Aquela que incluía cantar o Hino Nacional, a matéria Educação Moral e Cívica, o boletim, a forma para entrar, professores respeitados e profundamente comprometidos com a educação, nunca mais.
Temos uma enorme falta de educação, falta de responsabilidade geral de todos, ninguém responde pelo que faz, um país “perdido” no tempo (o futuro já passou) e no espaço, um povo que se abandona , um governo com uma liderança incapaz de conduzir o país . Isso não é fruto da incapacidade dessa nação de se recuperar da ditadura?
Não é mais uma vez a escolha de “ridículos tiranos”, e penar por mais 20 anos? Uma vez ouvi dizer que para se recuperar de uma ditadura um país precisa de 3 gerações. Estamos na 3ª. Geração, ano passado fomos um milhão de pessoas nas ruas, em paz, para pedir melhor saúde e educação. A geração da mudança mostrou sua cara, e todos vimos.
Perfeito que no país do futebol se proteste contra o excesso de ganância das instituições que empresariam o futebol e transformam o espetáculo num grande negócio, onde cada milímetro tem seu preço – só nós podemos, perfeitamente, fazer esse protesto com moral de campeões, de peladeiros, de apaixonados pelo esporte. Há uma linha de anúncios na televisão em que diferentes celebridades falam de experiências de torcida, alegria e deslumbramento com Copas do Mundo anteriores, quando pintávamos as ruas, as caras, as casas e os corações de verde e amarelo. Não há espaço para isso agora… Os espaços são ocupados, e o verde-amarelo tem já definido o seu. MESMO. Por uma Lei Geral .
Li um artigo de um belga nos agradecendo por fazer isso, mostrar ao mundo o quanto os cartolas estão errados no que estão fazendo. E nós, um país subdesenvolvido, não nos curvamos a isso. Merecemos agradecimentos e ele escreveu isso.
Perfeito que tenhamos a honra, a hombridade e a garra de reclamar contra tudo isso, e que peçamos o que é importante no lugar certo. O esporte no lugar do esporte, o governo no lugar do governo, saúde e educação como serviços a serem prestados. É a geração que pode fazer a diferença na recuperação da ditadura. Que vença aqueles que querem um governo forte. Que esses percebam sua responsabilidade na mudança da situação que não gostam.
Rio, 1/4/2014

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